Dia ruim

Postado em Cinema em 10/02/2011 por Daniel Salomão Roque

“Cisne Negro” faz com que você se sinta o mais esperto dos débeis-mentais: ao som de música erudita, te mergulha no cotidiano de uma bailarina complexada e te obriga a provar um bocado da mesma paranóia vivenciada por ela. Mas tudo com muita cautela, já que o espectador não é lá muito inteligente e pode se sentir perdido no meio de toda essa confusão: e dá-lhe artifícios explicativos e psicologismos de boteco!

Perceber-se vítima de uma picaretagem não é uma sensação das mais agradáveis. E ao término da sessão fico pensando nisso tudo, acreditando na impossibilidade do dia se tornar ainda mais melancólico. Aí descubro há poucos minutos que a Tura Satana morreu nessa semana.

Pois é, fiquei sabendo apenas agora.

Se coexistissem num mesmo universo, as strippers exóticas de “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” provavelmente submeteriam a bailarina monga de “Cisne Negro” a umas boas porradas, sem firulas nem refinamentos postiços.

O gênio fala

Postado em Cinema em 09/02/2011 por Daniel Salomão Roque


“Os caras da Cahiers du Cinéma me procuraram. Eles queriam analisar a conexão entre a placa balançando no início de Seis Mulheres para o Assassino e o telefone caindo no chão quando a Eva Bartok morre. Eu nem mesmo me lembrava o final do filme.”

MARIO BAVA

Hitchcock encontra James Brown

Postado em Cinema em 04/02/2011 por Daniel Salomão Roque

Como se o encontro já não fosse insólito o bastante, James Brown ainda foi capaz de confundir Psicose com Homicidal.

Grande Inácio

Postado em Cinema em 02/02/2011 por Daniel Salomão Roque

FILMES QUE NINGUÉM COMPREENDE

Inácio Araújo

Não sei como alguém pode enxergar tanta coisa no filmeco de Apichtapong. Fiz a besteira de assisti-lo e não aguentei ficar até o fim. E olhe que entrei “na ponta dos pés”. Por que será que é tão difícil para um crítico de cinema dizer que um filme ruim, de um diretor renomado, é apenas um filme ruim? Nota-se um certo mal-estar em Inácio Araújo ao dizer que não é fanático pelo diretor e que é difícil dizer se esse filme mereceu a Palma de Ouro. Difícil por que? Falar de animais, pássaros e macacos-fantasmas ao invés de dizer o óbvio? Ora, tenha paciência! O filme de Apichtapong lembra os de um outro embuste chamado Abbas Kiarostami, um diretor chatíssimo mas com fama de “profundo”. E depois ainda falam mal do cinemão de Hollywood…

Começo por esse comentário, feito recentemente. Não importa quem o fez. Retrata uma atitude muito freqüente no espectador eu diria deste século.

Não sei como alguém pode enxergar tanta coisa no filmeco de Apichtapong.

Ou seja: só o que eu vejo pode ser visto. Sou o centro do mundo. Qualquer entendimento que não o meu é falso ou de má-fé.

Eu queria dizer que, no caso do cinema, esse “euísmo”, para usar o termo de Celine a respeito dos artistas, essa atitude não é assim tão pessoal: ela foi cuidadosamente construída como um antiintelectualismo fim de século, que confere ao sujeito a ilusão de que só o imediatamente compreensível a seus olhos pode ser apreciado.

Nota-se um certo mal-estar em Inácio Araújo ao dizer que não é fanático pelo diretor e que é difícil dizer se esse filme mereceu a Palma de Ouro. Difícil por que? Falar de animais, pássaros e macacos-fantasmas ao invés de dizer o óbvio? Ora, tenha paciência.

Que mal estar? Com a mesma presteza com que despacha um filme ele entende que pode, no seu absolutismo personalista, me atribuir estados de espírito. Ora, o que eu disse é cristalino e não vou nem explicar. Está lá. O misterioso, o incompreensível, no caso, é a frase seguinte: “falar de animais, pássaros e macacos-fantasmas ao invés de dizer o óbvio?”. Ok. O que é óbvio? Por que não se pode falar de pássaros ou animais? Existe alguma lei proibindo? E o que há de errado com macacos-fantasmas? Centenas de filmes nos trazem fantasmas, por que por uma vez eles não poderiam ser macacos? O que tem contra macacos?

E será que a Fera de “A Bela e a Fera” é tão diferente desse macaco? E será que o ogro do Shrek é também incompreensível? Ou será que ele “diz o óbvio”? Ah, será que ele é “apenas” uma fantasia? Ok. Mas porque o macaco-fantasma não pode ser? Por que pode haver aparições em “Além da Vida”, digamos, mas não aqui? Um é “óbvio” e o outro não? Bem, nesse caso, será “óbvio” o que acontece em “A Origem”, por exemplo, tido e havido como o fenômeno intelectual do século pelos adeptos do “dizer o óbvio”. Que dizer de pessoas que entram e saem de sonhos como se sonhos fossem um supermercado? É “óbvio”? É mais compreensível do que um macaco-fantasma, por exemplo?

O filme de Apichtapong lembra os de um outro embuste chamado Abbas Kiarostami, um diretor chatíssimo mas com fama de “profundo”. E depois ainda falam mal do cinemão de Hollywood…

Passemos pelo fato de que Apichtapong não tem nada a ver com Kiarostami. O passo seguinte dessa operação consiste em dizer: se eu não entendo esse objeto absurdo colocado à minha frente, mais ninguém entende. Não é que me faltam elementos para entendê-lo. É que ele só pode ser “um embuste”. Como o cara que diante do quadro abstrato recusa-se a compreender que ali exista algum tipo de raciocínio, de continuidade. Ele diz: o meu filho faz igual.

O passo seguinte dessa operação mental consiste atribuir falsidade ao outro, ao leitor que eventualmente sinta prazer diante desse objeto incompreensível, tortuoso, portanto monstruoso, que deve ser objeto de destruição, não de entendimento – já que embustes só podem ser entendidos como tal. É como dizer: se eu não senti prazer diante disso, ninguém sentiu. Quem diz que sentiu está, claro, mentindo. O Inácio mente, está constrangido de dizer isso ou aquilo, etc.

Aí entramos num mundo conspiratório que envolve o festival de Cannes, o júri de Cannes, o distribuidor do filme, os críticos e espectadores que gostaram do filme. Eles formam uma corrente de pedantes que, como numa conspiração, parecem trocar senhas, sinais secretos, apenas para desorientar o gosto pelo “óbvio”. Óbvio que nem é tão óbvio assim, como a gente viu no caso de “A Origem”. Ou que pode ver no caso de “Benjamin Button”: o que há de óbvio em alguém nascer centenário e morrer nenê? Ou em… Enfim, talvez o mundo não seja tão óbvio assim.

Faltava a palavra inevitável: chatíssimo. Essa espécie de condenação à morte simbólica. Há duas maneiras de um filme ser chato: ou porque nós não o compreendemos ou porque o compreendemos demais. Talvez o nosso amigo do óbvio se divirta à beça vendo, digamos, “De Pernas para o Ar”. Lhe parecerá perfeitamente compreensível que uma mulher frígida descubra a sexualidade não fazendo psicanálise ou procurando um outro parceiro (o marido a abandonara, no mais): parece perfeitamente óbvio que ela descubra a sexualidade com um vibrador, que se sinta realizada abraçando um coelho movido a pilha etc. Isso lhe parece compreensível, assim como os de “A Origem”, até porque são filmes que vêm com bula, sobretudo o segundo, isso é, com essas explicações prévias que os estúdios destilam pela mídia.

E para esses leitores o único conhecimento aceitável é o das bulas de remédio. E, como se trata de fenômenos de conhecimento, é bem mais fácil imaginar que não existe desconhecido, que não existem campos a desbravar. Apenas o óbvio. O mundo já está decifrado. Quem não professa o óbvio é, obviamente, um impostor. O quê? Freud com o inconsciente? Um impostor. Picasso? Não sabia pintar, era um idiota, por isso pintava tudo torto. Godard? Nem se fala. Esse é tão óbvio que é melhor nem falar. Beckett? Como não sabia desenvolver histórias, inventava essas coisas que não vão nem pra frente nem pra trás. E todos esses, claro, contam com o beneplácito dos intelectuais, dos críticos, esses parasitas infatigáveis, sempre dispostos a dizer que se deleitaram com essas monstruosidades, mas que elevam aos céus esses impostores tipo Manoel de Oliveira, Antonioni, David Lynch… Que não compreendem que só queremos ver “uma boa história”.

Ora, o que são boas histórias? A do Homem-Aranha? Eu adoro. Mas não me parece nada “óbvio” um cara que atravessa uma cidade pulando com sua teia. O que há de óbvio nisso? Francamente, o macaco-fantasma do Apichtapong às vezes me parece bem mais acessível. Ah, mas o Homem-Aranha é cheio de aventura, não é chato. Concordo. Mas por que todo filme teria de ser cheio de incidentes, aventuras? Será que não podemos admitir – já não digo apreciar, mas ao menos admitir – que existam outras formas de narrar, outras histórias a contar que não aquelas “óbvias”, isto é, que nos parecem familiares por uma razão ou outra?

Ou seja: por que devemos exigir que o cinema nos traga sempre “o óbvio”, aquilo que já sabemos ou pensamos saber previamente? É claro que isso também tem sua função. Mas o mundo não pode ser feito apenas de faroestes, ou dramas, ou comédias. Ele precisa ser feito de faroestes e dramas e comédias e muitas coisas mais.

E depois ainda falam mal do cinemão de Hollywood…

Quem fala mal, cara-pálida? O fato de gostar de Godard ou Apichtapong ou Kiarostami não nos impede de gostar de Hollywood, ou ao menos de James Cameron, de John Carpenter, de Clint Eastwood, de Coppola (pai e filha), de George Romero, de Wes Craven, de Brian de Palma, de Martin Scorsese, de Paul Schrader, de Joe Dante…

Porque esse é o último estágio da operação (pode ser o primeiro): atribuir ao outro algo que não lhe passa pela cabeça, para melhor poder delirar em cima disso.

Para quem, sinceramente, pretende entender alguma coisa quando entra num cinema, que seja adolescente ou inculto ou o que for, eu diria que o que não compreendemos é o que ainda temos a compreender, a desbravar, a aprender. Ninguém nasce sabendo. Vivemos para aprender. Não é vergonha procurar compreender as coisas.

Para esses arremates de humanidade para quem a ignorância é o estágio máximo de humanidade, bem, segue um boas festas e um “não tem papo” à moda do Jairo Ferreira.

Chega por enquanto. Isso é uma introdução a duas ou três coisas que quero escrever a respeito de “Os Residentes” e “Santos Dumont – Pré-cineasta”, exibidos em Tiradentes.

Um falecimento ignorado pelos nossos brilhantes cadernos culturais

Postado em Cinema em 22/08/2010 por Daniel Salomão Roque

Christoph Schlingensief morreu ontém, vítima de câncer, poucos dias antes de completar cinquenta anos. Seu filme “United Trash” milagrosamente saiu em VHS no Brasil com o título de “Messias da Destruição” e é, sem exagero, uma das obras mais ousadas e grotescas da década de 90, tendo no elenco Udo Kier, a musa russ-meyeriana Kitten Natividad e um anão negro disforme no papel de Jesus Cristo. Praticamente desconhecido por aqui,  Schlingensief era uma verdadeira celebridade na Alemanha.

Algumas pessoas dizem que cada país tem os artistas e governantes que merecem. Sem entrar no mérito da validade de tal argumento, quero apenas dizer que ele me incomoda, principalmente quando penso nos jovens cineastas provocadores. Os alemães tinham Schlingensief, nós temos Claudio Assis. Triste, mas de qualquer forma o Brasil está melhor servido que a França de Gaspar Noé.

Crumb me chamou de doente e Shelton me desenhou um Freewheelin’ Franklin

Postado em Outras coisas em 11/08/2010 por Daniel Salomão Roque

Na Livraria da Vila, Crumb me chamou de doente e Shelton me desenhou um Freewheelin’ Franklin!

Não é que eu consegui ver os caras? E, mais do que isso, ser um dos 40 felizardos contemplados com autógrafos e apertos de mão?

Diálogo para contar pros netos:

EUHey Mr. Crumb, I love “Joe Blow”!

CRUMBYou’re sick, man!

Tive o prazer de perguntar ao senhor  Shelton alguns detalhes do longa-metragem de animação dos Freak Brothers. Abaixo, o mestre autografando meu gibi. Na primeira foto, à esquerda, eu observo tudo com uma puta sorriso no rosto. Um tsunami humano se aglomerava em volta de Crumb, razão pela qual não consegui ser fotografado ao lado dele. Bela noite.

Dennis Hopper

Postado em Cinema em 30/05/2010 por Daniel Salomão Roque

Hopper ao lado de três outros grandes gênios transgressores: Donald Cammel, Alejandro Jodorowsky e Kenneth Anger.

Vai fazer muita falta esse homem.

Crumb sai da toca…

Postado em Outras coisas em 22/04/2010 por Daniel Salomão Roque

… para vir à Flip desse ano.

Minha inveja em relação aos moradores do Rio, que ano passado já puderam prestigiar o Gay Talese, só não é maior que minha tristeza por morar longe e não ter disponibilidade (nem grana) para viajar em agosto. Pouca gente me influenciou como esse sujeito.

William Castle morreria de inveja

Postado em Cinema em 06/04/2010 por Daniel Salomão Roque

Uma série de problemas tornou 2005 um ano não muito agradável na minha vida; 2006, dentre outros motivos, só não igualou seu antecessor por conta de um projeto de cineclubismo onde filmes escolhidos por mim eram exibidos em sessões duplas num espaço cultural da cidade. A experiência, apesar dos pesares, foi bastante divertida e recebeu uma acolhida de público que chegou a me surpreender na época, mas terminou do modo mais patético possível: um funcionário nos informou que o projetor do local havia sido roubado, o que implicava na suspensão temporária das sessões. De temporária essa suspensão tornou-se permanente, muito mais pela raiva que a situação me provocara do que por uma impossibilidade propriamente dita de se levar a coisa adiante.

Contudo, passados quatro anos daquele incidente e chegando outra Copa do Mundo, o Cineclube Grande Otelo retomou suas atividades; torço para que dessa vez seja para valer. A inauguração da nova fase ficou a cargo de Carlos Enrique Taboada, que teve seu filme “El Libro de Piedra” exibido no dia 25 de março. O filme, sobre magia negra, obsessões espirituais e solidão infantil, é de congelar o sangue; não obstante, circunstâncias extra-cinematográficas contribuíram para que o mesmo deixasse a (escassa) platéia ainda mais assustada. No clímax da obra, quando a madrasta da menina enxerga no espelho o fantasma de Hugo, um ruído abafado vindo do lado de fora da sala foi embalado por uma grande gritaria: abro a porta e me deparo com uma mulher caída no hall; ela teve um piripaque e chorava aflita enquanto aguardava uma ambulância. O clássico de Taboada não foi exibido até o final, tampouco tive notícias da moça. Na próxima sessão, teremos Zulueta ou Terayama – faço votos para que todos sobrevivam.

Andrea Pazienza em ação

Postado em Outras coisas em 16/02/2010 por Daniel Salomão Roque

O maior talento de um gênio é fazer seu ofício parecer a coisa mais fácil do mundo.

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