Não há muito o que se dizer de “Mondo Topless”. É, em sua essência, um filme para ser visto e sentido — no significado mais lascivo do termo. São 60 minutos de montagem frenética, cores hipnóticas e easy listening dos bons, embalando stripteases em cenários extravagantes e paradisíacos. O chacoalhar de peitos é acompanhado por depoimentos em off das beldades, onde seus pensamentos acerca dos homens e dos relacionamentos amorosos são compartilhados conosco; sorridentes, exuberantes e pertencentes às mais diversas etnias, as moças transbordam força e vitalidade, não carregando dentro de si nenhum vestígio de fragilidade ou submissão. Como toda obra de Russ Meyer, “Mondo Topless” é um libelo contra o marasmo e o conservadorismo, cujo requintado senso estético desperta no espectador seus mais libertários impulsos hedonistas. É impossível achar que o dia não valeu a pena quando encerramos a noite com um filme desses. Viva Russ Meyer!
Uma sinfonia de peitos
Postado em Cinema em 07/02/2010 por Daniel Salomão RoqueVigilante Rodoviário em DVD
Postado em Cinema em 01/02/2010 por Daniel Salomão Roque
No final de 2009 e início de 2010, a Spectra Nova — figurinha carimbada nos baciões das Lojas Americanas — surpreendeu a todos com um box contendo 35 dos 38 episódios de “Vigilante Rodoviário”, distribuídos em quatro discos. Custa apenas R$ 50 e é, por uma penca de motivos, um dos grandes lançamentos que o mercado nacional de vídeo já teve. De valor histórico inestimável, este seriado — o primeiro da América Latina — pode ser considerado uma das mais bem-sucedidas incursões dos brasileiros no chamado “cinema de gênero” e serve como um raríssimo testemunho dos primórdios de nossa TV, tão carente de documentação.
Filmada em película, a série teve seus negativos restaurados e, no ano passado, entrou na grade do Canal Brasil, sendo depois lançada em formato digital. Com exceção de três episódios que se perderam para sempre, está tudo lá na caixa — incluindo o piloto de 1959, “O Diamante Grão-Mongol”. Somando a duração total de cada um dos discos, temos cerca de 11 horas, o que torna a fruição dos mesmos um processo bem demorado. Adquiri os DVDs há cerca de duas semanas e, até então, conhecia a obra só de nome. Por enquanto, pude assistir apenas aos dois primeiros volumes, o suficiente para consolidar certas impressões. A primeira, e mais marcante, se refere à heterogeneidade da série, que alterna episódios relativamente intrincados, envolvendo ciladas e conspirações internacionais, com outros mais amenos, melodramáticos e moralistas. A segunda está relacionada ao meu gosto pela história de São Paulo, que teve vários de seus pontos mais famosos transformados em locações para as aventuras do Inspetor Carlos e seu cão Lobo; o ato de assistí-las é um passaporte para as ruas e estradas paulistas da década de 60, já repletas de arranha-céus e automóveis, mas certamente muito diferentes de hoje.
Em breve, escreverei um texto mais aprofundado a respeito.
OBS | Não posso deixar de destacar dois episódios que se sobressaem entre os demais: “A Pedreira”, sobre uma menininha encurralada num local de difícil acesso que está prestes a ser implodido, é de uma tensão primorosa; já “O Sequestro do Juca”, estrelado pelo genial Juca Chaves em início de carreira, apresenta um timing cômico invejável, que não deve nada às melhores comédias já feitas nesse país.
Orozco e Kiyotaka, das tripas coração
Postado em Cinema em 25/01/2010 por Daniel Salomão RoqueTsurisaki Kiyotaka formou-se em literatura e durante alguns anos foi diretor na famigerada indústria pornográfica nipônica, produzindo vídeos de sadomasoquismo e escatologia. Quando o dono da companhia onde trabalhava teve a idéia de lançar uma revista com fotos de cadáveres para complementar as de sexo explícito, ele foi encarregado de ir até a Tailândia para clicar os bastidores de um necrotério local. Kiyotaka achou isso tudo muito divertido e resolveu fazer desta a sua nova atividade. O ano era 1994. De lá para cá, seu nome tornou-se cada vez mais conhecido no ramo da fotografia forense, ofício que encara como expressão artística. Calcula-se que as lentes do japonês já tenham registrado cerca de mil e quinhentos corpos das mais diversas e perigosas localidades do planeta, quase sempre frutos da miséria, do acaso e da violência extrema.
Entre suicídios, assassinatos, acidentes automobilísticos e autópsias, o fotógrafo percorre o mundo tal qual um andarilho, hospedando-se em locais como a Palestina, Serra Leoa, Iraque, Israel e até mesmo o Brasil. As imagens que produz nessas viagens podem ser vistas nos livros de luxo que são vendidos em seu site oficial e em exposições promovidas pelas galerias mais radicais dos EUA, Japão e Europa. Elas são marcadas pela profusão de sangue, vísceras e miolos, mas chocam mais pelo intimismo que pelo teor gráfico: hábil no aproveitamento da luz natural, do ambiente desolador dos hospitais e dos cenários hostis das guerras e periferias metropolitanas, Tsurisaki clica seus defuntos com uma proximidade, senso estético e sofisticação assustadores, sempre atento a detalhes que fazem da foto um veículo de reflexão sobre a faceta abrupta da morte, e não um mero pretexto para a exibição de tripas. A delicadeza mórbida de uma mão feminina decepada, ostentando no dedo anular uma aliança brilhante e nas unhas o colorido vivo de um esmalte qualquer, é captada em close-up, tendo ao fundo a escuridão rude do asfalto que serviu de palco para a batida de carro; a terrível expressão de medo e desgosto estampada no rosto de uma senhora idosa, morta a tiros pelo neto viciado em drogas, assim como o caos de móveis velhos e paredes descascadas que envolvem a cena do crime, é enfatizada em detrimento dos simples buracos de bala. Este seu poder de síntese reflete um olhar apurado e, obviamente, doentio, capaz de tornar a observação da tragédia alheia uma modalidade artística bastante coesa, ainda que moralmente duvidosa.
OROZCO, EL EMBALSAMADOR
A visão inusitada de Tsurisaki a respeito das desgraças estende-se também aos domínios do cinema, onde o sujeito dirigiu dois documentários subordinados a essa temática. O mais recente deles, “Junk Films” (2007), é uma coletânea de cenas bizarras e chocantes gravadas ao redor do mundo, com forte influência da estética mondo surgida a partir de meados dos anos 60. Pelo menos é o que seu trailer indica. Embora eu ainda não o tenha assistido, tive acesso ao seu antecessor, “Orozco, El Embalsamador” (2001), que causa grande impacto e, querendo ou não, consiste numa experiência memorável.
Acompanhado por Álvaro Fernandez Bonilla (talentoso fotógrafo policial colombiano que recentemente enfrentou problemas judiciais por acusações de pedofilia), o artista japonês traça um retrato sórdido, deprimente e, por incrível que pareça, terno do território conhecido como “El Cartucho”, o mais violento e miserável de uma cidade já marcada por sérios problemas sociais: Bogotá. O passeio da câmera pelas suas ruas sujas, repletas de prédios em ruínas, terrenos abandonados e favelas, serve como testemunho sensacionalista de um cotidiano nada desejável: enquanto mendigos fumam crack em seus cortiços e crianças pedem esmolas aos transeuntes, travestis e prostitutas são agredidos pela polícia nas esquinas; àqueles desejosos por um pouco de escapismo e distração, restam os botecos. O tédio é absoluto e o surgimento de corpos esfaqueados ou baleados não parece ser um motivo de muito choque para a população local, acuada por uma disputa sangrenta entre os cartéis de drogas da região.
Num lugar com tamanho índice de mortalidade, não é de se surpreender que as funerárias constituam um setor tão lucrativo. A demanda pelo serviço é alta e elas existem aos montes, polarizadas pelo Instituto de Medicina Legal. Transitando por estes estabelecimentos, chama a atenção a presença dos embalsamadores, responsáveis pela conservação dos cadáveres nos dias que antecedem o velório. Quando das gravações desse filme, Froilan Orozco era o mais antigo e experiente profissional da classe em El Cartucho. Ex-investigador da polícia e sobrevivente das turbulências políticas que se instauraram na Colômbia após o homicídio, em 1948, do líder populista Jorge Eliécer Gaitán, ele embalsamou por volta de 50 mil pessoas ao longo de sua carreira e morreu durante as filmagens do documentário, em função de uma hérnia estrangulada.
“Orozco, El Embalsamador” é, portanto, um filme-testamento, uma síntese dos últimos momentos de um senhor que lidou durante toda a vida com a finitude e foi pego de surpresa por ela. Completamente absorto em seu serviço, ele pouco ou nada fala diante da câmera; quando o faz, é para explicar os motivos de certos procedimentos. Seus métodos, trejeitos e ferramentas são rústicos ao extremo, assemelhando-se muito mais aos de um açougueiro que aos de um médico: depois de despir o morto, colocá-lo deitado sobre uma espécie de tanque gradeado, abrir seu corpo na transversal com um facão enferrujado e remover suas entranhas, que são deixadas de lado por um momento, o embalsamador, com truculência, vira o falecido de bruços, a fim de drenar seu sangue; em seguida, recoloca as vísceras no lugar, preenche com jornal, trapos e formol o espaço vazio que se forma dentro do cadáver, costura sua pele e põe suas vestimentas; por último, aplica a maquiagem facial e, finalmente, acomoda o corpo no interior do caixão.
Esse processo é repetido à exaustão, com homens e mulheres de todos os tipos físicos e faixas etárias, e vê-lo sendo executado uma única vez já é o suficiente para saciar qualquer resquício de curiosidade mórbida que possa estar alojado em nosso subconsciente. A repulsa, então, é anestesiada; de certa forma, o reconhecimento de tudo aquilo como parte de um cotidiano acaba por transformá-la em compaixão e melancolia. É a partir daí que o espectador se alinha a Orozco e percebe ser ele, e sua estranha personalidade, a essência do filme – os defuntos são apenas seu elo de contato com o mundo.
Tratando o passado como tabu, o embalsamador faz pairar em torno de si uma nuvem de niilismo, mistério e rancor: mostra, com uma nostalgia amarga, antigos retratos de seus tempos de juventude, mas se esquiva quando perguntado sobre “La Violência”, a qual afirma ter sido tão tenebrosa que nem mesmo gosta de se lembrar. Por outro lado, a displicência quase chauvinista com que maneja o cadáver de um bebê em muito diverge da austeridade que emprega para se referir à ética envolvida em seu trabalho. O falecimento repentino de Orozco, que proporciona ao filme um senso quase acidental de ironia, gera reações emocionadas: esforçando-se para conter as lágrimas, um garoto, seu aprendiz, atribui a ele todos os conhecimentos que possui e menciona a aura quase paterna que via na figura do embalsamador, cuja ambigüidade de espírito demonstra uma enorme sutileza implícita nesta obra que, à primeira vista, não parece esconder nada.
Eric Rohmer (4 de abril de 1920 – 11 de janeiro de 2010)
Postado em Cinema em 12/01/2010 por Daniel Salomão RoqueMacumba Love, no calor do momento
Postado em Cinema em 10/01/2010 por Daniel Salomão RoqueA história nada tem a ver com o Brasil. É um filme de aventuras que se desenrola numa ilha tropical supostamente localizada nas Antilhas. “Nas proximidades do Haiti — informa Ruth de Sousa, a atriz negra que apareceu em alguns filmes da extinta Vera Cruz — vive uma bela mulher branca, de sangue espanhol, chamada Vênus. O escritor norte-americano Peter Wiles vai à ilha em busca de informações sobre o ‘voodoo’, a magia negra, os feitiços que uma estranha mulher, Mama Rada Loi, espécie de sacerdotisa, sabe preparar, e que exercem maléfica e hipnótica influência sobre a espanhola. Daí surge todo um intenso drama, do qual eu participo em larga medida, pois sou a terrível feiticeira Mama Rada Loi…”
Além de Ruth de Sousa, outros artistas foram recrutados no Brasil pela Brinter, uma empresa americana que aqui veio para fazer esta película em co-produção. Destacam-se, entre eles, Pedro Paulo Hatheyer, galã dos filmes de Walter Hugo Khouri; Cléa Simões, Ricardo Campos e Jean Thuret.
Três norte-americanos interpretam os papéis principais: Walter Reed, Ziva Rodann (no papel de Vênus) e June Wilkinson. Aparece também como ator William Wellman Jr, filho do famoso diretor. A ilha das proximidades do Haiti foi facilmente encontrada num dos belos recantos da Ilha de Santo Amaro, perto de Guarujá, cidade balneária, onde se obtém todo o conforto e está a alguns passos de lugares maravilhosos e inteiramente desertos. O ambiente de magia negra, criado segundo as necessidades do filme, foi realçado eficazmente pela coreografia de Solano Trindade e pela participação do seu Teatro Popular Brasileiro.
Outras películas estão projetadas pela Brinter, uma de ambiente brasileiro, “Mato Grosso”, ou “Jungle War”, para a qual espera contratar James Mason e Sterling Hayden. Outro argumento aprovado é “Fieza”, possivelmente com Pier Angeli. Nesses dois filmes, a empresa, que está ligada aos laboratórios Pathé, terá a colaboração da Allied Enterprises Incorporated. Uma das razões pelas quais os americanos escolheram o Brasil para campo de suas atividades foi o baixo custo da mão-de-obra em nosso País. Estão, porém, preocupados em obter a melhor colaboração possível. Entre outros técnicos, o filme contará com a participação de Enrico Simonetti, autor da partitura musical; Pierino Massenzi, cenógrafo; Rudolf Icsey, fotógrafo; e George Pifster, “cameraman”.
Essa resenha foi originalmente publicada no número 420 da revista Manchete, em maio de 1960. É o famoso número sobre a inauguração de Brasília, cuja capa mostra um JK sorridente levantando sua cartola em direção ao céu. Semana passada adquiri o exemplar e, muito surpreso, me deparei com o texto transcrito acima. O título original do filme, não citado pela matéria, é bem menos pomposo: “Macumba Love”. Segundo comentários, trata-se de um Trash com T maiúsculo. Ainda preciso conferir — vontade para isso não falta.
De volta
Postado em Cinema, Outras coisas em 06/01/2010 por Daniel Salomão Roque
Minha redenção após um mês de distância dos filmes.
Cale a boca, Dimenstein
Postado em Outras coisas em 03/12/2009 por Daniel Salomão Roque
Comentei aqui por diversas vezes que considero o vale-cultura, capaz de envolver até R$ 7 bilhões, um previsível desperdício –o dinheiro seria mais bem usado se focado nos estudantes das escolas públicas. Desde ontem, meu receio aumentou ainda mais, pela possibilidade de que, com esse benefício, mulher pelada também seja cultura. Ou gibi.
Foi aprovada uma emenda no Congresso permitindo que o vale-cultura seja usado para comprar jornais, revistas e gibis. Senadores argumentaram que, com isso, revistas como a “Playboy” seriam beneficiadas, mas a emenda foi aprovada assim mesmo.
Nada contra a “Playboy”, mas mulher pelada não é cultura –muito menos com dinheiro público.
Tirado daqui.
Acima, desenho de Guido Crepax — notório desenhista de mulheres peladas em quadrinhos. Ando pensando seriamente em trocar meus volumes de “Valentina” por um exemplar de “Cidadão de Papel”, leitura muito superior.
A América pelos olhos de John McTiernan
Postado em Cinema em 27/11/2009 por Daniel Salomão Roque
Fiquei muito surpreso ao saber que a última edição do Festival de Manaus, realizado em meados desse mês, contaria com a presença de John McTiernan como presidente do júri. McTiernan dirigiu belos filmes na virada da década de 80 para a de 90, alguns deles muitíssimos bem-sucedidos nas bilheterias, mas por algum motivo não tem um nome dos mais citados. Quando os vencedores do festival foram anunciados, um certo jornalista estúpido chegou a declarar que “McTiernan, quem diria, mostrou-se um democrata e grande entendedor de filmes de arte”. Como se o conhecimento cinematográfico do diretor fosse motivo de espanto – para não falar do termo “filme de arte”, profundamente irritante.
Esses eventos coincidiram com minha vontade de rever os dois primeiros longas do autor, e em parte me influenciaram a chegar às vias de fato. “Predador” (1987) e “Duro de Matar” (1988) continuam tão fascinantes quanto eram nos meus 11 anos de idade e ao mesmo tempo me parecem filmes completamente novos. São obras essencialmente americanas (com tudo o que isso pode significar em termos políticos e culturais), enraizadas numa visão de mundo que se reflete na forma como o espaço é explorado e na maneira como os indivíduos se deslocam nele: a caça ao monstro de “Predador” é filmada como se fosse uma batalha no Vietnã; em “Duro de Matar”, executivos passam uma noite presos no prédio de uma multinacional, envoltos por uma infinidade de aparatos que dão testemunho da superioridade tecnológica ianque e do quão vulnerável é esse povo. A ameaça, em ambos os casos, é externa: uma criatura interplanetária e um bando de terroristas europeus.
Os dois filmes fazem apologia de uma idéia? Apenas ilustram um pensamento típico americano? Ou ironizam comportamentos sociais? Não saberia responder, e sinceramente não me importo. Prefiro me ater aos soldados que escutam Little Richard antes de se embrenharem na selva, ou ao casal que sobrevive a uma noite perigosa e se reconcilia ao som da voz de Vaughn Monroe. Em “Predador”, a música serve como um respiro final antes da tormenta; em “Duro de Matar”, como consolidação da calmaria. E tanto num quanto no outro, indica que as imagens que vemos são, sobretudo, entretenimento. Da melhor qualidade, por sinal.
OBS: Disse que estaria ausente até o final de dezembro, mas não resisto…
Ausente até o final de dezembro
Postado em Outras coisas em 24/11/2009 por Daniel Salomão RoquePrimeiro contato com o cinema africano
Postado em Cinema em 17/11/2009 por Daniel Salomão Roque
Existe algo no cinema africano que o impede de alcançar um público mais amplo; sinceramente não sei o que é e nem pretendo divagar muito a respeito porque me faltam conhecimentos aprofundados tanto do continente quanto dos filmes que lá são feitos. A marginalização histórica, a miséria e as diferenças culturais são explicações plausíveis, mas soam-me incompletas: o Irã não é um país que possa ser chamado de “desenvolvido” e apresenta costumes antagônicos aos ocidentais; mesmo assim, alguns de seus autores são figuras carimbadas nos grandes festivais — todo mundo sabe quem é Kiarostami. Se por um lado os Ursos, Leões e Palmas de Ouro nunca foram selos de qualidade, por outro eles são, sim, sinônimos de visibilidade — mesmo que temporária. No que se refere ao Brasil, país de nítidas influências negras, nem a premiação do filme “Carmen na África” durante o Festival de Berlim 2005 foi o suficiente para chamar a atenção das nossas platéias para o cinema feito naquele continente. De minha parte, não consigo me lembrar de ter visto sequer um filme africano antes da semana passada, quando travei contato com “Touki Bouki”, produção senegalesa de 1973 dirigida por Djibril Diop Mambéty.
O título — que em português poderia ser traduzido como “O Caminho da Hiena” — faz referência a uma antiga lenda do folclore local e traduz metaforicamente a odisséia de um jovem casal que resolve ir até Paris de motocicleta.”Touki Bouki” é, por assim dizer, um road movie, mantendo relações bastante curiosas e ambíguas com o gênero. Senegal parecia o território mais improvável a parir esse tipo de filme, que vivia então o seu auge e era quase sempre associado à contracultura anglo-saxônica; isso não impediu, porém, que as vias expressas da América fossem substituídas pelas estradas não-asfaltadas do litoral africano e que a juventude ianque de classe média cedesse espaço para dois adolescentes pobres da faixa subsaariana. Tamanho deslocamento, associado à apropriação de certos ícones, aflora nosso lado etnocêntrico e torna muito sedutor o julgamento da obra pelo viés mais fácil e preguiçoso: o do “exotismo”, aspecto que transparece, aqui, muito ironicamente — seja pelo retrato sarcástico de uma certa mentalidade européia ou por meio da própria caracterização dos senegaleses. A violência contra animais, por exemplo, é uma constante do filme, sendo apresentada com alta carga ritualística; não por acaso, a moto que carrega os namorados é decorada com um crânio bovino.
A despeito de qualquer pretexto, a viagem que os protagonistas empreendem diz muito mais a respeito deles que de qualquer outro fator. Em “Touki Bouki”, assim como na grande maoria dos road movies, o destino é menos importante que o percurso, e este é marcado por descobertas interiores; a diferença, no caso, está no viés místico que direciona os personagens e a natureza no qual estão inseridos — vide uma cena (por sinal, deslumbrante) onde a câmera, ao flagrar o transe semi-religioso dos protagonistas diante do mar, parece ser dirigida pela correnteza.
Um filme a se descobrir, apesar do estranhamento quase inevitável.













